Parado no ponto de ônibus, a espera de um carro adaptado, sim pois, nem todos são, essa é rotina que lhe assegura o direito de ir e vir.
Cadeirante há 10 anos, sua mobilidade física ocorreu de forma gradativa e talvez por isso, parte da limitação imposta pela vida, não o tenha transformado em um indivíduo amargurado. Antes da cadeira ser seu principal meio de locomoção, um par de muletas sustentavam seu corpo na superação de tantos obstáculos diários.
Dentro do ônibus, já devidamente preso ao cinto de segurança, apesar do dia frio, o suor escorria de sua testa e uma tosse intermitente denunciava a fragilidade de sua saúde. Me aproximo e pergunto se está tudo bem. Gentilmente sorri, agradece e põe a culpa em uma gripe mal curada. Nos dias seguintes, o peito cheio e a sudorese, não cessam.
Farrista, bom vocabulário, fala de futebol, economia e política com desenvoltura e arranca risos alheios facilmente. Eu penso...grita Giovanni, grita! Extravasa sua revolta, porque lhe roubaram os movimentos da perna? Reclame, esbraveje, chore Giovanni! Mas, ele ri e diz ser o único culpado daquela situação, por ter teimado e tomado refrigerante gelado.
Trabalha das 08h as 18h, seu percurso diário incluí 3 conduções na ida e 3 na volta, o trem ele dispensa, além, de achar lotado quer evitar aborrecimentos para outros passageiros. Já ouviu reclamação do tipo "cadeirante deve evitar sair de casa em horário de pico. E ele ri. Vai falar isso para o meu patrão"!!!
A força que as pernas não têm foram transferidas para as mãos ágeis, que giram com uma velocidade impressionante as rodas. Dificilmente aceita que empurrem sua cadeira, não por falta de humildade, e sim porque consegue ser mais rápido do que meus passos.
Embora parcialmente limitado, todos os outros sentidos foram desenvolvidos. Com olhos de águia, tornou-se um grande estrategista, calcula rapidamente e de forma antecipada, o trajeto que terá que percorrer para andar com sua cadeira em locais onde falta acesso. Buracos há muito, deixaram de ser empecilhos "10 anos em cima de uma cadeira, dá para aprender alguma coisa né"? A motorizada além, de cara é frágil para sua rotina e estilo de vida.
Mora sozinho, se vira bem, apesar de não ter uma casa adaptada. Não sei seu passado, também não me acho no direito de perguntar, se tem filhos, se já foi casado ou se possui parentes próximos que lhe auxiliam assim, como não faço ideia do que se passa em seu íntimo, nos momentos em que está só.
E penso...grita Giovanni! Xingue, desabafe, reclame, você pode! E quanto mais penso...mais ele ri! Um riso contagiante!











